Traço Nativo: exposição em Aparecida com artesãos goianos

Exposição revela a jornada de 12 artesãos que elevam a matéria-prima do Cerrado ao patamar de luxo e empreendedorismo.

Exposição 'Traço Nativo': A Revolução do Artesanato em Aparecida de Goiânia

Uma exposição de arte costuma ser intimista, geralmente em galerias, museus e ambientes mais reservados. Caminhar pelos corredores de um centro de compras costuma ser uma experiência previsível, pautada pelo ritmo do consumo e das vitrines iluminadas.

No entanto, quem atravessou o térreo do Buriti Shopping entre os dias 12 e 14 de março de 2026 deparou-se com uma ruptura nesse cotidiano.

Ali, em um espaço dedicado ao “Traço Nativo: Memorial Descritivo dos Artesãos”, o público foi convidado a mergulhar em um silêncio contemplativo diante de peças que narram a história da terra e do povo goiano.

A exposição não foi apenas uma exibição estática de objetos; ela funcionou como uma janela para o processo criativo de 12 expositores que residem ou produzem em Aparecida de Goiânia.

O projeto, que nasceu da mente e da curadoria do artista Elismar Santos através da Lumi Select, trouxe à tona uma proposta ousada: elevar a percepção do artesanato regional, retirando-o do lugar-comum do souvenir para posicioná-lo no mercado de alto padrão.

Elismar Santos, artista, idealizador e curador da Mostra, afirmou que o evento foi um sucesso, superando as expectativas. Os artesãos uniram design e tradição com peças que cabem tanto em ambientes mais simples quanto luxuosos
Elismar Santos, artista, idealizador e curador da Mostra, afirmou que o evento foi um sucesso, superando as expectativas. Os artesãos uniram design e tradição com peças que cabem tanto em ambientes mais simples quanto luxuosos

O Equilíbrio entre a Técnica e a Origem

O nome da mostra carrega em si a tese central do evento. O termo “Traço” refere-se ao refinamento, à orientação técnica e ao olhar apurado para o design contemporâneo. Já o “Nativo” ancora a produção na matéria-prima bruta encontrada no Cerrado e na ancestralidade dos saberes transmitidos por gerações.

Essa fusão cria uma identidade visual forte, capaz de dialogar tanto com a decoração de interiores sofisticada quanto com a preservação cultural.

Para Elismar Santos, o projeto atua como uma plataforma de capacitação. A intenção declarada é transformar ateliês em empresas lucrativas e validadas, mostrando que a riqueza do artesanato de Aparecida de Goiânia possui potencial para alcançar palcos estaduais, nacionais e internacionais.

Esse movimento fortalece a economia criativa, um setor que ganha cada vez mais relevância no desenvolvimento sustentável do município.

Os Mestres do Barro: Entre o Sagrado e o Cotidiano

A cerâmica é, sem dúvida, um dos pilares da mostra. Quatro nomes se destacam ao transformar o barro em narrativas complexas. Valmir Neves, mestre artesão de Aparecida, apresenta esculturas que carregam a força da terra com relevos e texturas profundamente inspirados na tradição barroca.

Suas peças são um convite ao toque, revelando uma técnica refinada que eleva a argila a um estado de nobreza artística.

No contraste das formas, encontramos o trabalho de Tuka Pereira. Conhecida por suas obras que exploram formas humanas, Tuka é famosa pelos seus “abraços” em cerâmica. Suas peças carregam uma carga simbólica e emocional intensa, explorando temas ligados ao afeto e à identidade cultural, transformando o material frio em algo que emana calor humano.

Carlos Antônio traz a arte figurativa para o centro do debate. Suas esculturas em cerâmica valorizam cenas urbanas e temas sertanejos, funcionando como um registro histórico da vida cotidiana. Com quase duas décadas de atuação, Carlos é um exemplo de como o artesanato pode ser uma ferramenta de documentação social.

Complementando este quarteto, Georgina Martins, vinda da Cidade de Goiás, une a tradição familiar de décadas com uma estética contemporânea, conectando o dia a dia à cultura do Cerrado de forma singular.

A Alquimia dos Materiais: Metal, Madeira e Sustentabilidade

A diversidade da exposição “Traço Nativo” se manifesta de forma contundente no uso de materiais reaproveitados e elementos naturais. Maicon Soares personifica o espírito da inovação ao transformar metais descartados em esculturas imponentes.

Por meio da soldagem, ele retira o caráter utilitário de restos industriais para criar obras que dialogam com a sustentabilidade e a estética moderna.

A madeira também encontra seu lugar nobre através das mãos de Guilherme de Castro. Seu trabalho de entalhe é uma ode à biodiversidade regional. Inspirado na fauna do Cerrado e na estética barroca, Guilherme cria aves e outros elementos naturais com um nível de detalhamento que exige paciência e profundo conhecimento da fibra vegetal.

Em uma linha que une o lúdico ao sagrado, Sandra Batista (da marca Arte com Amor) utiliza cabaças e outros elementos naturais como suporte para sua arte. Suas pinturas e modelagens manuais, frequentemente inspiradas na arte sacra e na natureza, demonstram como elementos simples da flora goiana podem se transformar em objetos de desejo e contemplação.

Tramas e Detalhes: O Delicado Olhar sobre a Porcelana e o Fio

A exposição também abre espaço para a delicadeza dos detalhes. Mercia Pereira, artista visual e professora, utiliza a porcelana como tela. Suas pinturas são composições inspiradas em memórias afetivas e na natureza exuberante que cerca a região.

Cada pincelada em porcelana é uma tentativa de eternizar a beleza efêmera das flores e pássaros locais.

No campo têxtil, Silvana Oliveira (Entre Fios e Contos) prova que o crochê ultrapassa o valor utilitário doméstico. Suas criações retratam paisagens e elementos culturais regionais, transformando fios em narrativas visuais que capturam a essência do povo goiano.

A técnica manual, muitas vezes subestimada, ganha aqui o status de arte visual de alta complexidade.

O Papel do Empreendedorismo na Cultura

A realização da mostra “Traço Nativo” no Buriti Shopping contou com o apoio estratégico da Prefeitura de Aparecida, da Secretaria Municipal de Cultura, do Sebrae Goiás e do Programa Retomada do Governo Estadual.

A presença do prefeito Leandro Vilela e do secretário de Cultura, Ícaro Silva, na abertura do evento reforça o compromisso da gestão pública com a visibilidade dos artistas locais.

Segundo o prefeito, apoiar o artesanato é valorizar a história e a identidade do povo de Aparecida. O apoio do Sebrae, representado por Daniela Caixeta, é fundamental para o pilar de “negócios” do projeto.

O artesão é incentivado a se enxergar como um empreendedor da economia criativa. Isso significa entender custos, logística, design de produto e estratégias de mercado, garantindo que o talento artístico resulte em sustentabilidade financeira.

Ao final da exposição, o que resta para o público não é apenas a lembrança visual de belas peças, mas a compreensão de que o artesanato de Goiás está em plena evolução. O “Traço Nativo” cumpre sua missão de ser um divisor de águas, provando que a tradição e a inovação podem, e devem, caminhar juntas para construir um futuro onde a cultura seja um motor de desenvolvimento e orgulho para toda a comunidade.

Os artistas da Mostra Traço Nativo, no Buriti Shopping

  • Elismar Santos
  • Valmir Neves
  • Carlos Antônio
  • Dulceny Pereira
  • Maicon Soares
  • João sacerdote
  • Guilherme Castro
  • Mércia Pereira
  • Silvana Oliveira
  • Maria da Conceição
  • Sandra Reis
  • Georgina Martins

Fontes

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